Sunday, January 15, 2012

A IMPUNIDADE DOS VERDADEIROS VILÕES DA SAÚDE PÚBLICA

MV. Mauricio Aquino
projeto@caracolafricano.com


De acordo com Indriunas (2009), a saúde pública em nosso país praticamente inexistiu nos tempos do Brasil Colônia (sic):
O pajé, com suas ervas e cantos, e os boticários, que viajavam pelo Brasil Colônia, eram as únicas formas de assistência à saúde. Para se ter uma idéia, em 1789, havia no Rio de Janeiro, apenas quatro médicos. Com a chegada da família real portuguesa em 1808, as necessidades da corte forçaram a criação das duas primeiras escolas de medicina do país: o Colégio Médico-Cirúrgico no Real Hospital Militar da Cidade de Salvador e a Escola de Cirurgia do Rio de Janeiro. E foram essas as únicas medidas governamentais até a República. [...] Foi no primeiro governo de Rodrigues Alves (1902-1906) que houve a primeira medida sanitarista no país. O Rio de Janeiro não tinha nenhum saneamento básico e assim, várias doenças graves como varíola, malária, febre amarela e até a peste espalhavam-se facilmente. O presidente então nomeou o médico Oswaldo Cruz para dar um jeito no problema. Numa ação policialesca, o sanitarista convocou 1.500 pessoas para ações que invadiam as casas, queimavam roupas e colchões. Sem nenhum tipo de ação educativa, a população foi ficando cada vez mais indignada. E o auge do conflito foi a instituição de uma vacinação anti-varíola. A população saiu às ruas e iniciou a Revolta da Vacina. Oswaldo Cruz acabou afastado. A forma como foi feita a campanha da vacina, revoltou do mais simples ou mais intelectualizado. Veja o que Rui Barbosa disse sobre a imposição à vacina: ‘Não tem nome, na categoria dos crimes do poder, a temeridade, a violência, a tirania a que ele se aventura, expondo-se, voluntariamente, obstinadamente, a me envenenar, com a introdução no meu sangue, de um vírus sobre cuja influência existem os mais bem fundados receios de que seja condutor da moléstia ou da morte’. [...] Apesar o fim conflituoso, o sanitarista conseguiu resolver parte dos problemas e colher muitas informações que ajudaram seu sucessor, Carlos Chagas, a estruturar uma campanha rotineira de ação e educação sanitária. (INDRIUNAS, 2009)
Como podemos perceber, na história da saúde pública brasileira, a adoção de medidas sanitárias nunca foram, propriamente, bem interpretadas pela população, mesmo tenho salvado muitas vidas.


Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro.
A Fundação Oswaldo Cruz, que leva o nome do primeiro sanitarista brasileiro, incompreendido em sua época, deu um alerta sobre os riscos potenciais do caracol africano exótico invasor. Só que, mais uma vez, a falta de sutileza suscitou em alguns pesquisadores, na imprensa em geral e principalmente, na população, um pessimismo exacerbado graças a divulgação de hipóteses remotas que foram amplamente difundidas como regras e que, felizmente, não se concretizaram, mesmo depois de 24 anos de íntimo acompanhamento.
Ao longo deste período, muita gente leu e repetiu nomes como A.costaricensis e A. cantonensis e aprendeu que vermes podem causar meningite, assim como as bactérias e vírus e até perfurações intestinais. Mas toda esta temática teria sido útil se tivesse sido direcionada para a educação sanitária da população que poderia ter aprendido ou relembrado, por exemplo, sobre medidas profiláticas simples que poderiam ter evitado muitas doenças graves transmitidas pela falta de higiene ou então, ter sido usada para pressionar o governo a adotar investimentos em saneamento básico, que teriam salvado um incalculável número de vidas.
No entanto, todo este circo em torno do Caracol Africano não atingiu, na verdade, nenhum objetivo útil, exceto, a promoção do pânico em milhões e a criação de um impensável neologismo na língua portuguesa, a Malacofobia, que nada mais é do que medo de moluscos, que levou a população a desforrar-se sobre nossas lesmas, caracóis e caramujos nativos, muitos deles já ameaçados de extinção pela ação antrópica.
Em toda esta mirabolante história, é importante expor uma surpreendente constatação: o Caracol Africano, Achatina (Lissachatina) fulica (Bowdich, 1822), desde a sua introdução no Brasil há 24 anos até hoje, janeiro de 2012, não foi responsável pela transmissão de uma única enfermidade. As principais doenças atribuídas ao Africano, a Angiostrongilíase Abdominal e a Meningite Eosinofílica (ME), causadas pelos vermes Angiostrongylus costaricensis e Angiostrongylus cantonensis, respectivamente, nunca foram relacionadas diretamente ao Africano no Brasil, apesar dos intensos esforços dos pesquisadores e das autoridades sanitárias.
Até hoje foram notificados no país seis casos de Meningite Eosionofílica, a pior doença atribuída ao Africano. Os quatro primeiros casos foram diagnosticados no Espírito Santo, os dois primeiros descritos por Moreira-Silva (2004, p.169) devido ao Toxocaras canis, um verme comum em cães; o terceiro e o quarto casos, em 2007, devido a ingestão de uma lesma crua de jardim, a Sarasinula marginata (Semper, 1885) (Caldeira; Mendonça & Goveia 2007; Thiengo et al 2010) fruto de uma disputa de coragem entre dois homens num churrasco de domingo (devia estar faltando carne e carvão); e os últimos dois casos ocorreram nos municípios de Escada e Olinda, Pernambuco, em 2008, devido, novamente, a ingestão crua de um caramujo límnico o Pomacea lineata Spix, 1827.
O fato é que, nenhum dos seis casos de ME descritos até hoje na literatura científica brasileira foram provocados pelo Africano e em nenhum dos trabalhos houve relatos de óbitos.
Segundo Chrosciechowski (1977), é surpreendente a falta de especificidade do A. cantonensis em relação aos seus hospedeiros intermediários e paratênicos, citando uma longa lista de moluscos gastrópodes terrestres e de água doce (caramujos, caracóis e lesmas) capazes de se infectar por via natural ou experimental, hospedando larvas infectantes deste perigoso parasito de roedores.
Resumindo, além do Achatina fulica, existe uma grande quantidade de moluscos brasileiros que também podem hospedar o A. cantonensis e A. costaricensis, causadores da Meningite Eosinofílica e Angiostrongilíase Abdominal, respectivamente, e a lista de espécies suscetíveis irá ampliar-se à medida que forem realizados novos experimentos e pesquisas.
O mais curioso é que no país existem doenças realmente preocupantes, com um elevado número de óbitos e a imprensa nem sequer se preocupa em divulgar, quanto mais combater!  Num período de 10 anos (1998 a 2008): a esquistossomose, uma enfermidade parasitária transmitida por caramujos líminicos nativos do gênero Biomphalaria, de acordo com o DATASUS, foi responsável por 5691 mortes no Brasil; a cisticercose, causada por outro parasito, transmitido através da carne de porco mal cozida, fez 1236 óbitos; as dengues, 1458 óbitos e a doença de Chagas, 54.995 óbitos. Enfim, são centenas de doenças que ceifam milhares de vidas todos os anos, entre elas, a anemia e a subnutrição, que o Africano poderia estar contribuindo diretamente para minimizar, por ser abundante e rico em nutrientes de alta qualidade, caso não fosse pelas campanhas terroríficas e mentirosas que foram executadas ao longos de anos a fio.
De acordo com Martins (2009, p.1), um bilhão de pessoas sofria de desnutrição em 2009 e embora o Brasil seja o quarto maior produtor mundial de alimentos, produzindo 25.7% a mais do que necessita para alimentar sua população, ele ocupa o 6° lugar em subnutrição. De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, os três estados com maior número de pessoas em extrema pobreza estão no Nordeste. A Bahia é o estado brasileiro com a maior concentração de pessoas em situação de extrema pobreza (2,4 milhões), o segundo é o Maranhão (1,7 milhão) e o terceiro é o Ceará (1,5 millhão). O Pará, na região Norte, é o quarto (1,43 milhão). O quinto é Pernambuco (1,37 milhão) e, em sexto, está São Paulo (1,08 milhão). O estado de Alagoas, onde moro, aparece em 10º lugar e, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, temos 633.650 pessoas em extrema pobreza, o que representa 20.3% da população total do estado (CALHEIROS, 2011). Ao todo, de acordo com o Ministério da Saúde, existe no Brasil 16,27 milhões de pessoas nessa condição” (WSCOM, 2011).
Para o governo prover segurança alimentar a sua população é importante discutir-se as diversas causas: cidadania; distribuição igualitária de alimentos e combate ao desperdício; superação da pobreza; escolaridade e saneamento básico; inserção social; geração de renda; quantidade e qualidade da alimentação. Em minha opinião, uma educação de qualidade deve ser prioritária entre todas as outras, pois dar o peixe ajuda a matar a fome, mas não ensina ninguém a pescar, contribuindo apenas, para a perpetuação do assistencialismo em favorecimento da miséria, o que só beneficia em curto prazo, a classe política dominante que, tradicionalmente, manipula esses eleitores na base do toma-lá-dá-cá.
Fagbuaro (2006, p.688), assegura que o Africano é uma boa fonte de proteínas (18 ~ 21%) onde na Nigéria, um único caracol pequeno, com 25 gramas,     fornece 45% da necessidade diária de PTN de uma criança. Hoje em dia, o caracol é uma parte significativa e essencial da dieta de várias tribos no litoral nigeriano. Além das   proteínas, o caracol é rico em minerais como zinco, magnésio, cálcio, fósforo, potássio, sódio e ferro.
Atualmente, o Brasil lidera um acelerado processo de extinção de caracóis nativos endêmicos no continente sul-americano, muitos deles ameaçados de extinção devido as campanhas públicas terroristas mal conduzidas desde 2003 "Pro Erradicação do Africano” no meio ambiente do Brasil. Entre todas as espécies nativas de caracóis terrestres, especialmente os representantes específicos das Famílias BULIMULIDAE, STROPHOCHEILIDAE e MEGALOBULIMIDAE, muitas delas raras e endêmicas, no geral, muito pouco conhecidas cientificamente até hoje, são as mais ameaçadas. E o pior é que o Brasil, atualmente um modelo de desenvolvimento, vem influenciando seus "vizinhos territoriais" a seguir a mesma trilha desastrosa.
A divulgação de inverdades que definem o Africano como espécie não comestível, como hospedeiro intermediário responsável pela transmissão de um significativo número de casos de Meningite Eosinofílica ou até identificá-lo como transmissor da  Esquistossomose, uma gravíssima doença transmitida por outros moluscos nativos, tem que parar, caso queiramos contribuir para a formação, política e ecologicamente correta, de pesquisadores responsáveis e cidadãos conscientes, capazes de lidar com a realidade.
Participe de nossa campanha “Aliança pela Vida”,  visite: www.CaracolAfricano.com  e venha colaborar pela conservação dos nossos moluscos nativos e pelo aproveitamento racional do Africano. Devemos converter o “aparente problema” do Caracol Africano em “oportunidade” para todos e não em “oportunismo” para alguns;  e para isso, temos que encarar o problema de frente, com maturidade.
http://noticias-malacologicas-am.webnode.pt/news/o%20caracol%20africano%2c%20de%20problema%20a%20solu%C3%A7%C3%A3o%20-%21/

Referências:

CALDEIRA, R.L.; MENDONÇA, C.L.G.F.; GOVEIA, C.O., et al. First record of molluscs naturally infected with Angiostrongylus cantonensis (Chen, 1935) (Nematoda: Metastrongylidae) in Brasil. Mem Inst Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 102, n. 7, p.887-889, nov. 2007. Mensal. 

CALHEIROS, V. Segurança Alimentar é desafio em Alagoas. Disponível em: <http://www.ojornalweb.com/2011/09/25/seguranca-alimentar-e-desafio-em-alagoas>; Acesso em: 26/09/2011. 

CHROSCIECHOWSKI, P. Angiostrongylus cantonensis (Nematoda). Una amenaza potencial. Bol. Dir. Malariol. Y San. Amb., Maracay, Venezuela, p. 295-299. dez. 1977. 

FAGBUARO, O. et al. Nutritional status of four species of giant land snails in Nigeria. Journal of Zhejiang University SCIENCE B. Nigériga. 2006 7(9):686-689. Disponível em: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1559794/> Acesso em: 23/09/2011 

INDRIUNAS, Alexandre. A história da saúde pública brasileira. Publicado em 25 de abril de 2007  (atualizado em 08 de maio de 2009). Disponível em: <http://pessoas.hsw.uol.com.br/autores-brasileiros.htm> Acesso em: 12/01/2012 


MARTINS, F. ONU Avalia que a fome no mundo cresceu: Combinação de crise alimentar com a desaceleração econômica global fez com que esse número aumentasse em 2009. Espaço Cidadania. Disponível em: <http://www.metodista.br/cidadania/74/onuavalia-que-a-fome-no-mundo-cresceu> Acesso em: 26 set. 2011.

MOREIRA-SILVA et al. Toxocariasis of the central nervous system: with report of two cases. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, Vitória, v. 2, n. 37, p.169-174, abr. 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rsbmt/v37n2/19602.pdf>. Acesso em: 02 dez. 2011.

THIENGO, S.C. et al. The giant African snail Achatina fulica as natural intermediate host of Antiostrongylus cantonensis in Pernambuco, northeast Brasil. Acta Tropica, Rio de Janeiro, p. 194-199. 18 jan. 2010. 

WSCOM. Bahia é o estado com mais pessoas em situação de miséria, diz governo: Segundo ministério, Bahia tem 2,4 milhões de extremamente pobres. Nordeste é a região que concentra maioria de pessoas nessa condição. Disponível em: <http://www.wscom.com.br/noticia/brasil/BAHIA+E+ESTADO+COM+MAIS+MISERAVEIS-105729>. Acesso em: 04-11-2011. •

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